A história se passou na década de 70, eram todos cavaleiros, todos soldados, tropas, tanques de guerra, armas, explosivos, eram todos cavalheiros. Cavalheiros explosivos, eles contavam várias histórias, uma delas (a melhor de todas) era sobre suas botas, de couro, tingidas por manchas de sangue esquecidas e escurecidas pelo tempo, diziam que não adiantava lavar, em todos os momentos lá estaria ela, a mancha, na bota. O conto da bota parecia mais uma lenda do que um fato consumado, afinal, de eles eram bastantes bonitos para serem tão sinceros.
- É claro que começa com os pés, é uma bota, deveria ficar no pé, não é ? Perguntou-me o mais jovem, com suas bochechas rosadas pela vergonha que lhe caía.
- Eu não sei, vocês dizem tanta coisa que fica difícil de acreditar! Sorri, tentando deixa-lo mais a vontade.
- Você é uma garota esperta. Sussurrou.
- Tudo começou um pouco antes disso, se é que você me entende, havia pilhas delas. Ah! como elas pesavam, e acredite hoje elas pesam menos! O que eu quero mesmo dizer é que elas significavam tanto para o coronel que ele as deixara por conta da terra, para cobri-la e conforta-la.
Eu percebi a ironia em sua voz, suspeitei que as outras garotas, as mais jovens, não tivessem tido a mesma sorte.
- O alarme tocava todos os dias á partir das 03:00 da manhã, acordávamos e íamos á floresta, caçar, patrulhar, ajudar, e explorar. Achávamos corações quebrados, ossos despedaçados, olhos fora do corpo, vocês sabem, todas estas palavras têm mais de 10 significados, se você procurar direito. Certa vez, levei uma pancada na cabeça, eu fui o primeiro, todas as manhãs alguém desaparecia e depois de várias horas voltava atordoado. Ninguém sabia o por quê, suspeitávamos que eram inimigos, talvez uma guerra começasse com dor de cabeça!
Ele olhou pra mim e sorriu, era minha vez de ficar vermelha.
- A glória era nossa única esperança, rezar era essencial. Até que achamos as botas, 30 pelas minhas contas, eu era jovem, não prestava muita atenção em números, mas sei que desde que as coloquei nos meus pés, senti algo estranho. Eram todas tentadoras, contempladas por serem tão belas mesmo com o passar do tempo. Foi aí que percebi que os desaparecimentos haviam parado, pensei por dias e noites até chegar a uma conclusão.
Ele nos fitou, os olhos amargos, esperando que alguma de nós se manifestasse, foi uma pena.
- Você esta certa! Foi uma pena!
Olhei para todos os lados para confirmar se ele estava falando comigo mesmo, e realmente eu deveria estar certo, só não sabia ainda o por quê.
- Era uma pena, que havia dentro da bota, presa dos lados, cada uma de um lado diferente. Eu era indígena, apesar de branco, eu sabia que penas como aquela traziam poder, e morte.
Continuamos a deixar de entender todas as suas palavras, elas não faziam sentido algum.
- Vivi 20 anos depois daquele ano e, certa vez, acordei e estava preso numa árvore, encontrada numa floresta deserta, sem vida alguma. Rezei para que minha esposa me encontrasse, quando consegui sair liguei para todos os meus amigos que estavam na mesma situação que a minha, eram todos mortos, é claro!
Agora, estávamos espantadas!
- Voltei para casa depois de alguns dias e todos haviam desaparecido, como se ninguém que eu houvesse amado antes existisse, era culpa da pena é claro, da bota. Voltei ao mesmo deserto e enterrei minha bota da mesma forma que a encontrei, e hoje todas as vezes que me vejo no espelho, vejo a áurea da felicidade que eu havia vivido. A história nunca se tratou de bota, pena ou soldados, mas de destino, e acredite ou não, ás vezes ele têm de ser cumprido. Então eu acordei.
- E eu também. Disse.